Entrevistas

dezembro 2011

Martha Medeiros 01 de dezembro de 2011

Martha Medeiros é nome forte na literatura brasileira atual. Sensível, ela transita pela poesia, pela ficção e pelas crônicas com talento e naturalidade, e já até se aventurou na literatura infantil. Além de escrever títulos de sucesso, como Montanha-Russa; Doidas e Santas; Fora de Mim; Divã o mais recente Feliz por Nada; ainda assina colunas nos jornais Zero Hora e O Globo. Mas, mais justo do que rotular o trabalho dessa escritora de acordo com gênero ou linguagem, é dizer que Martha transita pelas palavras, simplesmente. Sem rótulos, sem receitas.


Você conquistou um espaço de destaque na literatura brasileira. Seus leitores têm uma identificação pessoal com tudo o que você escreve. Imaginamos que esse reconhecimento seja satisfatório, mas não gera uma tensão? Você se sente responsável pela repercussão do seu trabalho?

Costumo ser desestressada em relação à repercussão do meu trabalho, pois não me levo tão a sério assim. Fico na torcida para que os leitores tenham consciência de que não sou dona da verdade e de que, quando escrevo, estou procurando respostas para mim mesma, antes de tudo. Fico um pouco desconfortável quando alguém me coloca num patamar meio irreal, como se eu fosse a pessoa mais bem resolvida do mundo, logo eu que vivo em estado de dúvida. Minha responsabilidade é a de escrever um texto que seja legível e que se comunique com o leitor, é compartilhar minhas opiniões e sentimentos. Nada além disso.

Oito anos após o lançamento de Divã, a obra ainda repercute com sucesso. Além da literatura, conquistou fãs com as adaptações para o teatro, o cinema e, mais recentemente, para a televisão. Essa consolidação em diferentes plataformas, foi uma surpresa?

Foi surpresa, sim. Divã foi meu primeiro livro de ficção. Um projeto experimental mesmo, mas com a responsabilidade de ter sido lançado por uma grande editora do centro do país. Imaginei, claro, que os leitores das minhas crônicas iriam curtir aquele monólogo feminino sobre a entrada na meia-idade e os questionamentos que advém dessa etapa da vida, mas nem em sonhos supus que a obra teria tantos desdobramentos e que o personagem ganharia tamanha projeção. Devo muito à talentosa Lilia Cabral, que abraçou a Mercedes com entrega total.

Sua trajetória profissional foi galgada principalmente na produção de poesias e crônicas, mas faz alguns anos que você escreve romances, com igual sucesso. Existe diferença entre os estímulos que levam a escrever para uma ou outra linguagem?

A minha poesia tem andado em marcha lenta, faz tempo que não escrevo versos, às vezes acho que perdi a mão, mas pretendo retomar, pois gosto dela, tem um frescor que me agrada. As crônicas são a parte mais racional do meu trabalho, são textos escritos com prazo de entrega, exigem responsabilidade máxima, disciplina, é e onde mais me exponho, pessoalmente. Ficção é outra coisa. Fico empolgada ao criar uma história, invadir sentimentos desconhecidos, e mesmo que eu utilize muito do meu arsenal particular para dar voz aos personagens, ainda assim me sinto protegida e mais à vontade para dar vazão a situações que não exigem a sensatez que o jornal comumente exige.

Você acha que o os leitores brasileiros consomem mais romance do que poesia? São públicos diferentes?

A poesia ainda é considerada a prima esnobe e chata da literatura. Não deveria ser assim, mas é. Hoje em dia as pessoas estão muito ligadas em custo benefício, compram um livro e querem algo em troca: entretenimento, compreensão, conhecimento. A poesia parece não entregar nada disso, é mais abstrata. Há que se ter um certo refinamento intelectual para mergulhar no mundo poético. Sem falar em outro complicador: é muito difícil estabelecer o que é e o que não é poesia. Qualquer meia dúzia de versos sem pé nem cabeça passa por poesia, e isso desestimula o leitor. Quem quiser conhecer poesia boa de verdade, recomendo Ferreira Gullar e Adélia Prado, pra citar dois grandes poetas brasileiros vivos.

Como foi sua experiência na literatura infantil, com "Esquisita como eu"? Você tem a intenção de escrever outras obras para esse público?

Foi uma experiência ocasional. Na época minha filha menor tinha 7 ou 8 anos e durante uma conversa que tivemos surgiu a ideia de escrever um longo poema para crianças. Como uma ilustradora já havia acenado com a vontade de fazer um trabalho em dupla comigo, entrei em contato com ela e o livro saiu. Mas o mundo infantil não é o que mais me cativa, acho o universo adulto bem mais rico e empolgante. Talvez volte a escrever algo para crianças, um dia, mas com o mesmo descomprometimento. Não pretendo me estabelecer nesse gênero, apenas me aventurar de vez em quando.

O que você lê para relaxar, por lazer?

Tanta coisa... Autores diversos. Recebo muitos livros de cortesia, mais de 10 por semana. A maioria eu cedo para bibliotecas públicas, pois não tenho como dar conta. Teria que pegar uma prisão perpétua para ler tudo o que guardo em casa, e ainda tenho o hábito de comprar muita coisa. Leitura é meu vício. Leio pouco poesia e crônicas, curiosamente os dois gêneros pelos quais sou mais conhecida. Adoro romances. Philip Roth, Paul Auster e Ian McEwan são meus autores favoritos.

Em que projetos você está trabalhando agora, tem data para um próximo lançamento?

Acabei de lançar uma nova coletânea de crônicas (publico-as de 2 em 2 anos, para documentar um trabalho que é originalmente efêmero, já que é publicado em jornal). O título é Feliz Por Nada, e já está frequentando a lista dos mais vendidos, o que me deixa muito orgulhosa. E no início do ano que vem pretendo lançar um livro com relatos de viagens, contando imprevistos, descobertas e curiosidades de inúmeras viagens que fiz pelo Brasil e pelo mundo. Viajar é outro vício que tenho.

Você se identifica com a gastronomia, gosta de cozinhar ou tem alguma especialidade na cozinha?

Eu adoraria saber cozinhar, aliás, é um projeto a ser realizado a curto prazo, estou decidida a aprender, mas não tenho familiaridade alguma com esse lado da vida. Aprecio comer pratos deliciosos, mas ainda não sou capaz de prepará-los. Pra me defender, sei fritar um bife, fazer uma massa, e só.

Há algum sabor ou prato que tenha te marcado ou traga lembranças especiais?

Gosto muito de peixes e camarão, mas não há uma receita específica que tenha entrado para a minha memória afetiva. Na verdade, sou pouco exigente. Tendo pães e queijos à disposição, sou a mulher mais feliz do mundo em qualquer lugar do planeta.

Tem alguma receita que você gostaria de compartilhar com nossos leitores?

Nem receita pra escrever, nem receita pra viver, nem receita pra cozinhar. Mas acredito que tudo o que a gente faz com honestidade, amor e bom humor, dá certo.

Foto: Cícero Rodrigues

Martha Medeiros

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