Entrevistas

dezembro 2013

José Antonio Pinheiro Machado 20 de dezembro de 2013

Em meio a pratos deliciosos, cozinhas encantadoras e a família, José Antonio Pinheiro Machado exerce um de seus dons: cozinhar. E o Anonymus Gourmet, como é conhecido em todo o país, tem muitos deles. Advogado, emissoras gaúchas, escreve colunas para jornais e também participa de programas de rádio. Antes disso já trabalhou como correspondente na Europa e repórter para revistas nacionais, atuando inclusive como redator-chefe da Playboy, além de paralelamente manter um escritório de advocacia.

Um apaixonado pela arte de cozinhar desde cedo, como contou quando entrevistado para a edição número 1 do EmFoco, em 2006, Anonymus conquistou uma legião de fãs atraídos pelo modo descomplicado de preparar pratos elaborados e saborosos. Para incentivar outros apreciadores da boa culinária já publicou mais de 20 livros de receitas. O mais recente, Show de Sabores, assinado em parceria com a família, foi lançado na Feira do Livro em Porto Alegre em novembro. Confira mais sobre o gourmet gaúcho, que alia simplicidade e sabor, na entrevista a seguir.


O programa Anonymus Gourmet faz sucesso ao apresentar receitas simples e saborosas, mostrando que pode ser fácil elaborar um bom prato. O que é necessário para cozinhar bem?

Gostar da coisa é a primeira condição. Cozinhar não pode ser um dever aborrecido executado por uma dona de casa solitária, exausta e sem esperança. Ou por ajudantes contrafeitas. Ou por alguém com pressa descongelando qualquer coisa num forno de micro-ondas. O bom desempenho na cozinha carrega, necessariamente, o impulso de uma vocação e a urgência de um destino, como diria o Padre Anchieta.


O gosto pela culinária parece ser de família, já que vários parentes contribuíram para o programa e agora o senhor apresenta ao lado de seu sobrinho. Como é essa relação familiar no trabalho? Todo mundo cozinha bem na “Família Pinheiro Machado”?

Além de gostar da cozinha e gostar de cozinhar, nós gostamos de trabalhar juntos e nos entendemos muito bem. Cada um tem as suas responsabilidades, dividimos bem as tarefas. E também nunca deixamos de fazer do trabalho na cozinha uma diversão, com momentos de descontração. A gente leva a sério o trabalho. Mas “levar a sério” não significa mau humor. Dizem até que o mau humor do cozinheiro afeta o gosto da comida!


O senhor gosta de queijos? Pode nos contar sua variedade preferida?

Adoro queijos. Considero a companhia ideal para um bom vinho. Um queijo do tipo parmesão, com sabor mais pronunciado, por exemplo, “pede” um bom vinho tinto. Mas há outros tipos muito interessantes de queijos que acompanham tintos e brancos, cerveja ou até sucos variados. Claro que tudo depende do gosto e dos hábitos de cada um. Para mim, uma boa porção de queijo, com um pão novinho e um copo de vinho, no final de um dia de trabalho, é uma refeição completa e um grande prazer.


Além de pilotar o fogão no programa semanalmente, o senhor costuma preparar as refeições do dia a dia também? Entre os pratos doces e salgados, quais os seus preferidos?

Sem dúvida. Cozinhar, para mim, é uma diversão. Além disso, é a garantia de usar produtos de primeira classe, saudáveis e nas melhores condições possíveis. Do período em que, muito jovem, com pouco mais de 20 anos de idade trabalhei como correspondente de jornais brasileiros na Europa ficaram influências, eu diria, boas influências, definitivas: além de queijos, adoro massas, risotos, carnes e peixes. Minha massa favorita é o fetuccine “doppio burro”, com dupla porção de manteiga e um queijo parmesão ralado generosamente espalhado por cima. O risoto com “funghi” é uma das minhas pedidas irresistíveis. Quanto às carnes sou “patriota”: não há nada que supere um bom churrasco! Em matéria de doces, minha preferência é pelos chocolates.


E o que não pode faltar na cozinha de jeito nenhum? Tem algum ingrediente “secreto”?

Afora os ingredientes subjetivos, como alegria, boa vontade, disposição para o trabalho e gosto pela cozinha, creio que o importante para quem vai cozinhar é ter os equipamentos mínimos sem os quais nem o maior cozinheiro do mundo consegue produzir. Uma cozinha limpa e bem organizada, com os equipamentos mínimos (fogão, geladeira, liquidificador, facas afiadas, colheres, recipientes apropriados e as panelas fundamentais) já é um bom começo. Os ingredientes (“secretos” ou não) vão depender do cardápio escolhido. Confesso que tenho certa resistência com temperos prontos e ingredientes artificiais: o que acrescenta sabor são os ingredientes frescos e naturais, bem escolhidos. Quando os ingredientes forem necessariamente industrializados ou adquiridos prontos, como queijos, manteigas, enlatados, embutidos etc., é indispensável o máximo cuidado com fornecedores. Empresas tradicionais, com sólida posição no mercado, são sempre garantia de bons resultados.


Conte para a gente: o que o senhor considera fundamental para as festas de fim de ano serem perfeitas?

Nas festas de fim de ano, o primeiro ingrediente para o sucesso é planejamento. Pense com antecedência no que vai fazer, no local, no número de convidados e na escolha do cardápio. A partir daí, tudo começa a dar certo. É sempre uma escolha prudente nessas festas respeitar a tradição: peru ou um bom assado no Natal, farofa, passas, frutas cristalizadas ajudam a criar o clima; no Ano Novo, a lentilha é incontornável um lombo de porco no capricho é sempre bem-vindo, com todos os acompanhamentos a que temos direito.


Entre tantos pratos deliciosos, como é definido o cardápio das festas em família?

O comum acordo é sempre uma boa política. Acho bacana o organizador da festa, em vez de impor suas vontades, sondar os desejos dos convidados, e utilizar essas consultas como base para preparação da festa. As crianças e adolescentes devem ter atenção privilegiada. No nosso caso, as festas familiares passam sempre pelos desejos do Alarico... Além disso, considero fundamental que, além dos agrados aos convidados, o organizador surpreenda-os. Como diria o querido e grande Vinicius, “é preciso que oinesperado faça uma surpresa”.


O senhor pode deixar uma mensagem final para os leitores do Em Foco.

Naturalmente que deixo os meus votos de Feliz Natal e um Ano Novo de muita paz. Aos cozinheiros, sejam velhos pilotos de fogão ou os marinheiros de primeira viagem, me permito lembrar que as receitas, numa cozinha, são por certo indispensáveis, como uma bússola no oceano. Mas receitas e bússolas se tornam instrumentos sem serventia se não houver, para decifrá-las, timoneiros de rumos inabaláveis.

José Antonio Pinheiro Machado

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